Eram horas de dormir, mas eu não vou, pronto, e agora?
Sim, eram horas de estar já na
cama, dormindo, sonhando talvez. Sim, eram horas. Mas que me importa dormir.
Quero é estar vivo, acordado, sentir o pulsar da vida em cada nota de música
que ouço e que me derrete o coração. Sei
que escrevo palavras que ficarão por aqui, sozinhas, ganhando poeira e teias de
aranha. Sei que escrevo apenas por impulso, como quem lhe apetece dar dois pés
de dança. Sei que escrevo por vontade de
comunicar, de mostrar a alma. Uma alma confusa que não sabe bem porque existe. Escrevo por amor, por saudade de
tempos passados, de vidas, de espaços, de momentos… e que momentos eu tenho
para contar!
Eram três tanques. Um maior onde
se juntava água para regar os campos, outro onde havia água limpa que tantas
vezes bebi, como se fosse um bovino sorvendo o líquido sagrado. Outro tanque,
onde uma avó lavava a roupa do marido, do criado. Nesse tanque, passava tardes
grandes ensaboando as mãos para depois fazer bolas mágicas de sabão que soprava
e as via crescer, crescer até rebentar.
Depois ia até ao fim da vinha, procurando as uvas mais temporãs. Ou
subia à ameixeira de ameixas amarelas e comia, comia as mais maduras, delícias
que me saciavam a alma e o coração.
Era uma casa que amava, que amo
ainda, apesar de já não existir. Uma casa de coração grande do tamanho do céu.
Uma casa que me abraçava, me embalava, me fazia voar de felicidade. Uma casa que me fez, que gravou em mim sulcos
eternos. Na verdade era um castelo. O castelo da minha fantasia. E eu sentia-me
rei.
Eram outros espaços, os campos de
milho onde adorava refugiar-me e gozar o prazer de um isolamento meio mágico. O
galinheiro onde vezes sem conta ia “roubar” ovos para fazer uma gemada numa
tigela com açúcar. As cortes do gado. Uma adega, à porta da qual, um avô de
bigodito sempre bem aparado dormitava sentado num banquito de madeira nas tardes
quentes de verão.
Ai, fico com a alma e o coração
em ferida quando falo deste reino em que fui rei, príncipe, cowboy, guerreiro,
espadachim e tudo o mais que que apetecia à minha vontade de faz de conta.
Sinto-me como se fosse um novelo
enorme de lã. E se começo puxando uma ponta, não me apetece parar. Não mesmo.
Queria poder entrar nos meus próprios sentimentos, na minha própria alma e
ficar sentadinho a saborear essas coisas lindas da minha infância. Os espaços,
as gentes, os momentos. Queria diluir-me nas recordações e nos sentimentos,
tentando reviver tudo de novo.
Custa-me ter sossego porque não
sei como transmitir e partilhar o que sinto.
É que, mesmo quando falo ou escrevo, como agora, acho que não consigo
partilhar nem uma milésima parte do que queria partilhar. Só conseguiria,
abrindo a alma como quem abre um livro. Mas a alma não é um livro. A alma não
se entra nela como se entra num livro.
Quem tem paciência para me ouvir,
para me ler? O que valem estas palavras para outros que não eu? Eu escrevo-as e
leio-as porque sei do que elas falam, sei o seu sentido. Elas são afinal o modo
que eu encontro de procurar, talvez sem qualquer êxito, de eternizar-me a mim
próprio.
Sim, eram horas de dormir, mas
não me apetece, para quê ir dormir, digam-me. Sinto uma vontade do tamanho do
mundo em ser teimoso e ficar aqui, sentado no sofá escrevendo toda a noite, ou
apenas estando. Como se fosse um jovem revoltado que foge às aulas e se refugia
no recanto de um bar. Também eu sinto revolta por esta mania que temos de
dormir. Sempre me foi difícil aceitar este ritual diário de ir dormir. Quando,
finalmente, vencido por este costume de toda a gente, faço-o ansioso, cheio de
pressa que a noite passe rápida e entre a luz do dia pela janela do meu quarto,
dizendo, anda lá, levanta-te, finalmente, já é dia. Eu gosto da noite. Muito
até. Mas não para dormir. Acho que devíamos dormir apenas quando, cansados e
exaustos, caíssemos para o lado. E dormiríamos de manhã, de tarde, de noite,
apenas quando já não aguentássemos mais estar de pé…
E eu agora, apetecia-me ficar
aqui neste sofá, ouvindo música até tombar de cansaço. Talvez ficando com um
dedo carregando, sem querer, numa qualquer tecla
Domingos Correia
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