terça-feira, 15 de setembro de 2020

Solidão

 

Solidão

A noite era um manto suave que embalava a sua alma. Refugiava-se na sua escuridão e sentia-se seguro, em paz, como se estivesse no paraíso. O dia, o dia, de manhã, ainda era razoável, sentia aquela esperança, embora vã, de que algo poderia acontecer de diferente na sua vida. Depois vinha a tarde, ai a tarde, quanto mais tarde, mais lhe fazia arder o coração e a pele e o corpo todo. Só a noite mudava tudo, como se acontecesse uma mágica.

As manhãs, passava-as passeando pelas ruas da cidade, como se fosse a um encontro, um encontro, porém, que nunca acontecia, mas pronto, quem sabe, podia acontecer a qualquer momento, uma amizade antiga, um rosto conhecido, um olhar… mas os olhares desviavam-se e passavam, e passavam… sem aportarem no seu olhar. E, no entanto, tanta gente, tanta gente! Às vezes, fixava um olhar ao longe, vendo-o aproximar-se, a aproximar-se… quem sabe, quem sabe…

As tardes, as tardes, passava-as quase sempre dando pedaços de pão às carpas do lago junto ao parque da cidade. Vinham também os patos bravos que, por falta de quem lhes fizesse mal, já nem eram assim tão bravos, tão selvagens, eram quase domésticos, tão dependentes se tornaram destes e doutros pedaços de pão. Atrás de si e dos lados, apareciam, esvoaçando, pombas, pardais, melros e, às vezes, até pintassilgos, verdilhões e tentilhões. Também eles reivindicavam  pedaços de pão.

Às vezes, apareciam ainda crianças, fascinadas pelo frenesim das carpas, patos e passarada a reclamar cada um o seu quinhão de comida caída dos céus. Então, nestas alturas, olhava as crianças e sorria-lhes e as crianças respondiam sorrindo também. 

Isto era o melhor da sua vida. Isto e a noite. Porque  a noite era mansa, terna e abraçava-o  e escondia-o e, escondido, sentia-se em paz, seguro, como se, por momentos, vivesse dentro de uma bolha protetora.

Um dia, pensava ele, um dia, a noite me levará para longe, talvez num barco à vela, ou a remos, ou apenas num barco à deriva, sem remos, sem vela, nem leme. Um dia, pensava ele, a noite me acolherá para sempre e então saberei o sabor da felicidade.

Mas não sei, não se sabe se aconteceu assim ou doutra maneira. Pouco importa. O que importa é a fé e ele tinha fé na noite. E isso acalmava-lhe todas as feridas que a vida lhe foi abrindo ao longo dos anos.

O que importa é a fé e ele tinha fé na noite.

E eu desejo que a noite não o tenha desiludido.

Domingos Correia 2020

Sem comentários:

Enviar um comentário

Solidão

  Solidão A noite era um manto suave que embalava a sua alma. Refugiava-se na sua escuridão e sentia-se seguro, em paz, como se estivesse ...